Sua empresa já tomou uma decisão sobre privacidade. Só que não sabe
A privacidade nas empresas é uma decisão estratégica que define a relação com os clientes e a solidez da arquitetura. Neste artigo, vamos ver:
Por que a privacidade importa, para as pessoas e para os negócios.
Por que a regulamentação é um sintoma.
Uma aproximação aos conceitos de privacidade e proteção de dados pessoais.
O desafio de projetar privacidade em uma organização.
Por que se preocupar com privacidade?
Para os cidadãos
A privacidade sempre nos importou. A diferença é que, no espaço digital, os efeitos da ausência de privacidade demoram muito mais para aparecer do que no espaço físico (analógico), onde a gente até consegue sentir essa ausência: quando alguém nos observa por muito tempo, temos a sensação de estar sendo vigiados e, por isso, mudamos nosso comportamento.
Por que isso é importante? Porque a falta dela dá poder aos outros sobre nós, como diria Carissa Véliz. Talvez seu parceiro (que ama você) queira saber a data do seu aniversário, sua religião, sua música favorita, seus diagnósticos médicos, os telefones dos seus amigos, amigas e familiares, para planejar uma surpresa e fazer você se sentir especial nesse dia.
Mas acredite: uns desconhecidos (que com certeza não amam você) saberem sua data de nascimento, sua religião e seus diagnósticos médicos só dá poder a eles sobre você. Em casos extremos, a falta de privacidade mata. Foi o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial: os nazistas consultavam os registros públicos para procurar judeus. Na França, encontraram e mataram apenas 25% da população judaica (ref.: livro “IBM and the Holocaust”, de Edward Black). Já na Holanda, onde esses registros existiam, encontraram e assassinaram cerca de 75% da população judaica. A diferença veio do francês Rene Carmille, que realizou um “hackeamento” durante o censo nacional solicitado pelos nazistas. O que ele fez foi reprogramar as máquinas Hollerith para que elas não perfurassem a coluna 10+1, onde os cidadãos indicavam qual era a sua religião. Com isso, salvou milhares de vidas. Um verdadeiro herói, não é?
Sem privacidade, não há garantia de igualdade, nem de justiça, nem de liberdade, nem de democracia. Não dá para garantir a liberdade de pensamento quando tudo o que lemos e assistimos está sendo vigiado, nem a confidencialidade entre advogados e clientes, ou médicos e pacientes, quando tudo o que dizemos vira um dado que é coletado, analisado e vendido.
A privacidade é mais relevante do que nunca
Para os negócios
Os negócios funcionam com base na previsibilidade e prosperam graças à confiança. Quando a previsibilidade se quebra e a confiança se desgasta, a viabilidade do negócio costuma ser afetada. Se os seus clientes sentirem que os dados e a identidade deles não estão seguros sob a sua guarda, vão levar a preferência para outro lugar. Por isso todo mundo, e sobretudo os engenheiros, precisa se preocupar com privacidade.
Há também a questão da reputação e da conformidade legal. A nova lei dá ao regulador ferramentas para examinar as práticas de privacidade como nunca antes. A privacidade já não é um esforço altruísta opcional: a consciência social vai continuar crescendo e as empresas estão sob escrutínio cada vez maior sobre como lidam com os dados dos seus clientes e como os protegem. Os erros e as más decisões têm mais chance do que nunca de vir à tona.
Você deve enxergar a privacidade como um investimento que protege seus clientes e posiciona o seu negócio como digno de confiança.
Regulamentação
Os governos promulgam leis de privacidade. Uma vez em vigor, essas leis ficam à disposição de reguladores e auditores. Os reguladores podem investigar empresas (em alguns casos, até por práticas anteriores à lei). Ao mesmo tempo, as empresas podem ser auditadas para demonstrar conformidade, o que pode ser requisito para assinar contratos ou acessar certos mercados. Isso significa que várias leis podem gerar auditorias, investigações e acordos ao mesmo tempo.
É tentador pensar que o problema começa com as regulamentações e que elas impõem complexidade desnecessária e travam a inovação.
As regulamentações surgem depois de anos de incidentes: vazamentos, acessos indevidos, reidentificação de usuários, uso abusivo de dados pessoais. Quando esses eventos se repetem, a pressão pública cresce, a mídia amplifica e os governos respondem. Do ponto de vista da engenharia, focar apenas em cumprir a lei é chegar tarde ao problema. É otimizar para o sintoma, não para a causa. Por isso, independentemente do tamanho da empresa, é importante trabalhar cedo as lacunas de privacidade, para alcançar uma maturidade suficiente que facilite a adoção de leis emergentes.
O que entendemos por privacidade e proteção de dados pessoais?
Acho que muitos jovens nem conseguem imaginar o que é viver com privacidade
A constituição nos dá pistas sobre esses conceitos e os menciona separadamente no artigo 19, N° 4; “Direito ao respeito e à proteção da vida privada e à honra da pessoa e da sua família e, também, a proteção dos seus dados pessoais”.
Vamos a uma aproximação; “privacidade” vem do verbo “privar”, ou seja, é aquilo que se priva da vista ou do conhecimento dos demais. Quais foram as partes físicas que se tentou privar da vista dos outros? Estão no mito do paraíso de Adão e Eva: as partes “íntimas”, que foram cobertas com a folha de parreira. Provavelmente essa foi a primeira manifestação, ou o primeiro símbolo, de privacidade (como ideia; a Agencia de Protección de Datos Personales poderia usá-la no seu logo)
O que é a evolução da nossa espécie humana? Nada mais do que uma história de conquista de espaços de privacidade. No começo, éramos hominídeos como os outros animais e fazíamos tudo à vista dos demais. Depois, fomos nos refugiando primeiro nas cavernas e depois nas casas, para privar os outros do conhecimento e da vista de determinadas coisas, e é isso que constitui a nossa vida privada.
Agora, vamos às diferentes formas em que a proteção de dados pessoais se apresenta. Segundo The Privacy Engineer's Manifesto, “a privacidade dos dados pode ser definida como o tratamento autorizado, justo e legítimo das informações pessoais”.
A privacidade está estreitamente ligada à segurança. Onde a privacidade vai um passo além da segurança é que esta última se concentra principalmente em proteger contra agentes externos maliciosos, enquanto a privacidade exige que os processos e sistemas também protejam os dados contra o uso indevido interno.
Nesse sentido, a privacidade começa depois de alcançado um nível ótimo de segurança. Como li por aí no LinkedIn: “a segurança é uma condição necessária, mas não suficiente, para a privacidade”.
Segundo a International Association of Privacy Professionals (IAPP), “a privacidade da informação é o direito de ter certo controle sobre como as suas informações pessoais são coletadas e usadas”.
Gosto dessa, porque dá ao usuário uma sensação de controle mesmo quando os dados dele são usados na sua ausência
Por fim, a minha definição favorita, presente no livro Data Privacy: “a privacidade dos dados se refere às ferramentas e aos processos necessários para proteger os dados dos usuários, evitando que sejam tratados ou acessados de forma diferente daquela que o usuário espera.”
Essa definição é especialmente importante porque coloca a responsabilidade pela privacidade onde, na minha visão, ela deve estar: nas empresas que coletam dados dos usuários e se beneficiam deles.
Onde termina a privacidade e onde começa a proteção de dados
Os dois conceitos vivem no mesmo inciso. O artigo 19 N° 4 protegia a vida privada e a honra; a frase sobre os dados pessoais foi acrescentada em 2018, com a Lei 21.096 (foi preciso uma reforma constitucional para incluí-la).
A privacidade protege um espaço; a proteção de dados pessoais regula uma relação. À intromissão na vida privada, a resposta é "não olhe". Ao tratamento dos nossos dados não podemos responder o mesmo, porque nós os entregamos e porque queremos que sejam usados: queremos que o banco nos identifique e que a clínica tenha a nossa ficha. O que podemos exigir são condições, e a Lei 21.719 as escreve em dois planos: os princípios que obrigam quem trata os dados, no artigo 3°, e os direitos que o titular dos dados pode exercer, nos artigos 4° a 9°.
Pensar a privacidade como sistema
Precisamos, então, começar a ver a privacidade como uma propriedade emergente do sistema, apoiada em três capacidades fundamentais
Primeiro, a capacidade de saber. Saber onde estão os dados, como fluem, quem os toca. Depois, a capacidade de reduzir. Reduzir a superfície de dados: cada dado que não é armazenado não é exposto nem replicado e é um problema a menos no futuro. Por fim, a capacidade de proteger. Controlar acessos, auditar ações, garantir rastreabilidade.
Um sistema bem projetado, que entende seus dados, minimiza sua exposição e controla seu acesso, naturalmente tende a se comportar melhor em termos de privacidade. Como mencionei antes, essas três camadas (conhecer, reduzir e proteger) são propriedades que devem permear todo o sistema.
Na minha visão, essa é a base do Privacy Engineering, que eu adoro e amo loucamente
Ferramentas de privacidade
Inevitavelmente surge a discussão sobre ferramentas. Construir ou comprar? É uma pergunta que os líderes precisam avaliar junto com os engenheiros. No fim, são eles que vão ter de implementar a solução escolhida, então é importante que tenham uma perspectiva informada.
Com base no que vimos antes, recomendo pensar nas ferramentas de privacidade nestas três categorias:
Saber: saber onde os dados pessoais são descobertos e localizados.
Reduzir: reduzir a superfície de exposição por meio de ofuscação e eliminação.
Proteger: proteger aplicando controles de acesso.
Quando os times compram ou constroem ferramentas, precisam entender qual problema estão resolvendo e como a ferramenta ou abordagem em avaliação contribui para essa solução. Depois vem a decisão difícil: construir ferramentas de privacidade internamente ou comprar soluções de terceiros prontas para usar? Elas podem ir de plataformas completas de privacidade a soluções mais específicas.
Engenheiros, líderes técnicos e arquitetos tendem a preferir a opção de “construir” como ponto de partida, por várias razões:
As soluções internas se beneficiam da consistência contextual e técnica com o stack existente da empresa e podem ser mais fáceis de integrar em uma arquitetura distribuída.
Os engenheiros diretamente afetados por lacunas e ineficiências nas ferramentas de privacidade conseguem construir soluções mais alinhadas às necessidades imediatas.
Muitas vezes há resistência do “financeiro” para adquirir ferramentas de terceiros, sobretudo por causa do custo das licenças.
Concordo com esses argumentos, mas as soluções internas também têm limitações:
Os engenheiros costumam trabalhar em silos e raramente consideram o stack completo ou a rastreabilidade ponta a ponta dos dados. Tendem a focar no que é relevante para seus produtos, priorizando profundidade em vez de amplitude. Isso pode cegá-los diante das implicações de privacidade e segurança mais adiante no fluxo. Por isso, confiar nesses mesmos engenheiros para construir ferramentas de privacidade com cobertura completa pode ser arriscado. Além disso, essas soluções costumam ser afetadas pelo viés de recência: resolvem problemas urgentes recentes em vez de antecipar problemas futuros. Ou seja, otimizam para “estancar a hemorragia” mais do que para “desenvolver músculo”.
Os engenheiros mudam de time ou de emprego com frequência, o que pode gerar problemas de manutenibilidade. As ferramentas de privacidade costumam exigir integrações profundas com data warehouses, pipelines e APIs, além de alta escalabilidade e disponibilidade. A falta de ownership estável pode afetar a capacidade de construir essas ferramentas e de gerar memória institucional.
Os serviços B2C modernos costumam priorizar disponibilidade em vez de consistência (erros de backend, por exemplo, podem passar despercebidos pelo usuário), mas as ferramentas de privacidade precisam dar suporte a auditorias e relatórios, em que precisão e completude são essenciais. Nesses casos, pode ser melhor usar ferramentas de terceiros já testadas do que arriscar soluções internas que poderiam falhar em incidentes críticos.
Não existe uma solução única para o dilema “construir vs. comprar”. Ainda assim, ao explorar opções para automatizar e operacionalizar a privacidade, essas considerações servem de guia. A menos que você tenha um time grande dedicado a construir ferramentas internas, provavelmente vai precisar avaliar soluções de terceiros.
O verdadeiro desafio é organizacional
Talvez o maior obstáculo para implementar privacidade de forma efetiva seja organizacional. A privacidade atravessa sistemas, times e disciplinas. As organizações, porém, são estruturadas em silos. Cada time otimiza localmente, enquanto a privacidade exige uma visão global.
Isso gera uma desconexão: ninguém tem a visão completa, mas todo mundo toma decisões que impactam. O resultado são muitos pequenos desalinhamentos que, somados, criam um problema estrutural.
Então, quando começar?
Você pode fazer isso no começo, quando o custo é baixo e as decisões ainda são moldáveis.
Você pode fazer isso depois do primeiro incidente, quando já existe pressão.
Ou você pode fazer isso no meio de uma crise, quando cada decisão é reativa.
A maioria das organizações escolhe a terceira opção ... .E essa é, consistentemente, a mais cara.
Fechamento
Hoje temos mais ferramentas, mais regulamentações e mais exemplos do que nunca. Mesmo assim, os problemas de privacidade persistem. Isso porque continuamos tratando a privacidade como algo externo ao sistema, quando na verdade ela é uma consequência direta de como o projetamos.
A privacidade não é acrescentada no final.
Ela não se compra por completo.
Ela é projetada. E, como toda boa decisão de arquitetura, ou você paga uma vez ou paga para sempre.
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Links de referência do artigo
“A falta de privacidade causou, indiretamente, mais mortes do que o terrorismo”: https://www.bbc.com/mundo/noticias-54476232
Borja Adsuara: ¿Día internacional de qué? Protección de datos personales vs. privacidad e intimidad. https://www.mastersofprivacy.com/p/borja-adsuara-dia-internacional-de-55b
The Privacy Engineer's Manifesto: https://drive.google.com/file/d/1RJWtR00baC1WJDI0BAmuKAj99siFfeNL/view?usp=sharing
International Association of Privacy Professionals: https://iapp.org/
Data Privacy: https://www.amazon.com/-/es/Data-Privacy-engineers-Nishant-Bhajaria/dp/1617298999
Global Table of Countries with Data Privacy Laws, Treaties, or Conventions: https://worldprivacyforum.org/posts/countries-with-data-privacy-laws/
Tracking Global Data Protection Laws in 2026: https://www.forcepoint.com/blog/insights/tracking-global-data-protection-laws-2026
National Comprehensive Data Protection/Privacy Laws and Bills 2026: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1951416
Lei 21.719, texto oficial — Biblioteca del Congreso Nacional
Lei 21.096 (2018), que consagra o direito à proteção dos dados pessoais
Carta dos Direitos Fundamentais da UE (arts. 7 e 8)
A proteção dos dados pessoais — Parlamento Europeu
Sentença de 15 de dezembro de 1983, Lei do Censo, Tribunal Constitucional Federal alemão